

{"id":972,"date":"2016-10-11T14:53:08","date_gmt":"2016-10-11T14:53:08","guid":{"rendered":"http:\/\/januspergher.com.br\/?p=972"},"modified":"2016-10-11T14:53:08","modified_gmt":"2016-10-11T14:53:08","slug":"pequenos-agricultores-do-nordeste-produzem-gas-para-suas-cozinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.januspergher.com.br\/index.php\/2016\/10\/11\/pequenos-agricultores-do-nordeste-produzem-gas-para-suas-cozinhas\/","title":{"rendered":"Pequenos agricultores do Nordeste produzem g\u00e1s para suas cozinhas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Para a produ\u00e7\u00e3o, os agricultores usam o esterco dos animais.<br \/>Assim eles economizam dinheiro e ajudam a proteger o meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um projeto est\u00e1 transformando a vida de pequenos agricultores do Nordeste: com o esterco dos animais, eles produzem o biog\u00e1s para usar na cozinha.<br \/>Da boca do fog\u00e3o sai um fogo azul, uma chama forte&#8230; E sem botij\u00e3o! O g\u00e1s vem de um tanque do lado de fora das casas. \u00c9 o Biodigestor. Nele, o esterco dos animais gera biog\u00e1s, uma energia renov\u00e1vel e que n\u00e3o polui o meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para conhecer a experi\u00eancia, o Globo Rural foi at\u00e9 S\u00e3o Bento do Una, no agreste de Pernambuco. A engenhoca est\u00e1 deixando muito agricultor desconfiado. \u201cQuem j\u00e1 viu esterco de gado dar g\u00e1s, n\u00e9? Pessoal mais antigo sempre tem&#8230; \u2018Oxe, esterco virar g\u00e1s? Como \u00e9 que se vira g\u00e1s?\u2019\u201d, diz o pequeno produtor Edivaldo Valen\u00e7a. Ele n\u00e3o imaginava que poderia aproveitar o esterco das vacas de outra forma &#8211; at\u00e9 agora, o que ele tira do curral vai direto para planta\u00e7\u00e3o de palma. Por\u00e9m, logo isso vai mudar. Ele vai continuar adubando a lavoura, mas de outro jeito, que ser\u00e1 explicado mais adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As obras do Biodigestor no s\u00edtio de Edivaldo j\u00e1 come\u00e7aram. E ele, que vive da produ\u00e7\u00e3o de leite, pensa na economia: n\u00e3o precisar\u00e3o mais comprar o botij\u00e3o de g\u00e1s. Edivaldo j\u00e1 calcula: \u201cVai ser uma economia de R$ 100 a R$ 150 por m\u00eas. Tem que fazer contas de centavo, porque a gente ganha em centavo e gasta em real\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3o de obra \u00e9 da comunidade e o pr\u00f3prio agricultor pode ajudar. O t\u00e9cnico em agroecologia, Wanderlei Nunes, acompanha os trabalhos. Segundo ele, o local deve ser escolhido com cuidado. \u201cO primeiro passo \u00e9 a escolha de um bom lugar, um lugar que seja ensolarado, perto da casa. O sol \u00e9 o fator ideal, \u00e9 o fator mais importante para a fermenta\u00e7\u00e3o do g\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolhido o local, escava-se um buraco com 1,80 metro de profundidade e 3,5 metros de di\u00e2metro. Dentro dele, \u00e9 erguido o tanque principal. \u201c\u00c9 utilizando o mesmo sistema [da cisterna], sem a cobertura da cisterna, mas \u00e9 o mesmo material, placa, ferro, cimento, areia\u201d, conta Wanderlei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o constru\u00eddos mais dois reservat\u00f3rios menores. O de abastecimento, onde ser\u00e3o colocados esterco e \u00e1gua, e o de descarga, num n\u00edvel mais baixo do que o de entrada dos dejetos, por onde vai sair o que sobra: o biofertilizante. Dentro do tanque principal, vai a caixa onde o biog\u00e1s ser\u00e1 armazenado. Bem no centro, um cano guia serve como eixo, j\u00e1 que ela se movimenta quando o g\u00e1s \u00e9 produzido. A caixa de 3 mil litros deve ser de fibra, que \u00e9 um material leve e bem resistente. \u201cEla \u00e9 a pe\u00e7a principal do biodigestor, porque ela \u00e9 quem armazena, ela \u00e9 quem ret\u00e9m o g\u00e1s. Ela tem a capacidade, dependendo da forma que \u00e9 abastecida, de 2 botij\u00f5es de g\u00e1s por m\u00eas, isso vai depender da fam\u00edlia que est\u00e1 usando\u201d, explica Wanderlei.<br \/>Uma t\u00e1bua de madeira \u00e9 fixada na caixa, para segurar o cano guia. Um outro cano, menor, \u00e9 para a sa\u00edda do g\u00e1s. No s\u00edtio do Edivaldo, o mesmo biodigestor vai abastecer duas casas: a do pr\u00f3prio Edivaldo com a esposa, dona S\u00f4nia, e a do filho deles. Dona S\u00f4nia est\u00e1 aliviada, porque buscar o botij\u00e3o de g\u00e1s \u00e9 sempre um transtorno. Segundo ela, a distribuidora fica a cerca de meia hora do s\u00edtio e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel trazer \u00e0 p\u00e9. \u201cEu t\u00f4 achando uma beleza, eu n\u00e3o vejo a hora. Eu tenho certeza que vai mudar tudo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00edtio da dona Brasiliana, o biodigestor est\u00e1 quase pronto. O encanamento que vai levar o g\u00e1s at\u00e9 o fog\u00e3o tamb\u00e9m j\u00e1 foi instalado. Ela j\u00e1 est\u00e1 ansiosa. \u201cEu achava que era hist\u00f3ria de \u2018trancoso\u2019, aquilo que n\u00e3o \u00e9 verdade, que n\u00e3o se realiza nunca\u201d. A vida toda, dona Brasiliana teve que ir para a mata atr\u00e1s de madeira para o fog\u00e3o \u00e0 lenha. \u201cEu revezava o botij\u00e3o com o fogo de lenha, mas queimava mais a lenha do que o botij\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 todo m\u00eas que tem R$ 50 para comprar o botij\u00e3o\u201d. Para o antigo fog\u00e3o a lenha, ela j\u00e1 tem planos: \u201cJogar para bem longe, n\u00e3o quero mais n\u00e3o, quero me livrar dele, se Deus quiser\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carmo Fuchs \u00e9 o coordenador do programa da ONG Diaconia, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental mantida por 11 igrejas evang\u00e9licas, que desenvolve a\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis no campo. \u00c9 comum o aproveitamento do esterco de animais em fazendas de gado, aves e su\u00ednos, onde o biog\u00e1s \u00e9 produzido em grandes reservat\u00f3rios. A diferen\u00e7a \u00e9 que o biodigestor \u00e9 menor, adaptado para uso das fam\u00edlias. \u201cA principal parceria \u00e9 com a fam\u00edlia. Depois de instalado, quem se responsabiliza pelo cuidado da tecnologia s\u00e3o as fam\u00edlias\u201d, explica Carmo Fuchs.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde 2009, j\u00e1 foram constru\u00eddos pela ONG mais de 500 biodigestores. A maioria em Pernambuco e Rio Grande do Norte. Mas j\u00e1 tem unidades na Bahia, Goi\u00e1s, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de eliminar o uso da lenha, o projeto tem outra fun\u00e7\u00e3o ambiental: as fezes dos animais quando se decomp\u00f5em, emitem gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. Ao serem armazenados, sem entrada de ar, os dejetos s\u00e3o fermentados pelas bact\u00e9rias presentes no estrume. Os gases sobem e v\u00e3o para o fog\u00e3o. O metano, ao ser queimado, se transforma em g\u00e1s carb\u00f4nico, que tem impacto 28 vezes menor no efeito estufa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um filtro \u00e9 o que d\u00e1 seguran\u00e7a ao sistema. O agricultor vai precisar de canos de PVC e um gal\u00e3o de fibra de vidro de 20 litros. Bastam 10 cent\u00edmetros de \u00e1gua. O biog\u00e1s chega por um cano, entra em contato com a \u00e1gua, que limpa as impurezas e tira o cheiro forte dos gases. Depois, ele sobe e sai por um cano at\u00e9 a casa. Se houver qualquer inc\u00eandio no fog\u00e3o, o g\u00e1s retorna e o fogo \u00e9 barrado pela \u00e1gua. Como a press\u00e3o do biog\u00e1s \u00e9 menor que a do g\u00e1s comum, coloca-se terra cima da caixa, para fazer peso. E o fog\u00e3o tem que ser adaptado &#8211; \u00e9 preciso aumentar o furo por onde o biog\u00e1s vai passar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Brasiliana est\u00e1 contente. \u00c9 o sonho de todo o agricultor diminuir seus gastos. A primeira coisa que eu vou fazer, logo amanh\u00e3, \u00e9 o meu doce de leite. Porque leva muito tempo pra fazer e consome muito g\u00e1s. Agora tudo o que eu quiser, eu vou fazer. Gra\u00e7as ao g\u00e1s que eu mesmo t\u00f4 produzindo!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para uma casa com cinco pessoas, s\u00e3o suficientes as fezes de dois bovinos adultos, 10 su\u00ednos ou 100 aves. Sempre 1 kg de dejetos para um litro de \u00e1gua. Mas para a primeira vez, o recomendado s\u00e3o 3,4 mil quilos de esterco e 3,4 mil litros de \u00e1gua. Depois do primeiro abastecimento, o biodigestor demora 15 dias para come\u00e7ar a emitir o g\u00e1s. Depois, o produtor precisa ficar de olho na caixa: quando ela sobe \u00e9 que tem g\u00e1s, quando desce a produ\u00e7\u00e3o diminuiu. \u00c9 o que o Paulinho faz todos os dias. Dez quilos por dia s\u00e3o suficientes para a casa dele e da m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tanque de descarga, sai o biofertilizante &#8211; um esterco j\u00e1 com uma quantidade menor de gases e rico em nutrientes. Com um filtro, d\u00e1 separar o fertilizante l\u00edquido do s\u00f3lido e adubar a lavoura. Toda a fam\u00edlia, do munic\u00edpio de Jupi, se envolveu no projeto. Vanessa Santos, mulher de Paulinho, conta que no come\u00e7o n\u00e3o foi f\u00e1cil. Eles precisaram da ajuda de vizinhos para o primeiro abastecimento com esterco. A m\u00e3e de Paulinho, a dona Joselita Santos, ficou surpresa com o biog\u00e1s, que queima menos as panelas. Mas a principal mudan\u00e7a foi no bolso. &#8220;Agora o dinheiro do g\u00e1s eu j\u00e1 pago energia, o dinheiro da energia j\u00e1 fica pra outra coisa. Praticamente, o dinheiro do g\u00e1s fica para uns col\u00edrios que eu uso&#8221;, conta ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O biodigestor tamb\u00e9m j\u00e1 faz parte do dia-a-dia do seu Alo\u00edzio Braz e de outra Joselita. O casal mora num s\u00edtio de 2,5 hectares em Carna\u00edba, no sert\u00e3o do Paje\u00fa. A regi\u00e3o foi uma das primeiras a receber a tecnologia. \u201cAqui no sert\u00e3o do Paje\u00fa a gente implantou o primeiro biodiogestor em janeiro de 2009. A demanda \u00e9 muito grande. N\u00e3o temos biodigestores suficientes&#8221;, diz Jucier Silva, t\u00e9cnico agropecu\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na regi\u00e3o, o biodogestor \u00e9 muito bem aproveitado h\u00e1 tr\u00eas anos. Na lavoura de milho e palma, nada de veneno, s\u00f3 biofertilizante. \u201cTenho cebolinha, alho, tomate. Pode plantar o que quiser\u201d, diz dona Joselita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ela soube do biodigestor, correu pra pedir um. \u201cEra um sacrif\u00edcio muito grande pra mim, eu s\u00f3 cozinhava com lenha. A gente n\u00e3o tinha dinheiro para trocar buj\u00e3o. Eu trocava buj\u00e3o uma vez no ano, quando dava certo. Ent\u00e3o, uma tecnologia dessa que voc\u00ea sabendo que com apenas o seu trabalho, voc\u00ea ia poder garantir o g\u00e1s pra cozinhar. \u00c9 \u00f3timo demais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cozinha, o forno n\u00e3o para. Rosquinha de c\u00f4co, p\u00e3o caseiro, o que antes era um luxo pra fam\u00edlia, agora \u00e9 complemento de renda. Com g\u00e1s \u00e0 vontade, dona Joselita agora faz doces para vender. \u201cGra\u00e7as a Deus, a gente n\u00e3o tinha absolutamente nada, hoje conseguimos pagar nossas contas\u201d, afima Joselita. E deu pra fazer mais. Tem meses que a venda de doces rende at\u00e9 R$ 300. \u201cEsse ano eu reformei a minha casa, ela n\u00e3o era assim, tava bem estragada, n\u00e3o tinha piso, parede quebrada. Com esse dinheirinho eu tenho a minha cozinha de trabalhar com a polpa de frutas, frutos desse pequeno lucro que eu tenho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada chama acesa, o biog\u00e1s revela um efeito multiplicador: mais economia, mais renda, mais bem estar para as fam\u00edlias. E claro, todas aprovaram.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/economia\/agronegocios\/globo-rural\/noticia\/2016\/10\/pequenos-agricultores-do-nordeste-produzem-gas-para-suas-cozinhas.html\">G1 Globo Rural<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a produ\u00e7\u00e3o, os agricultores usam o esterco dos animais.Assim eles economizam dinheiro e ajudam a proteger o meio ambiente. 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